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terça-feira, 3 de julho de 2012

"Com-licença" médica.


Segunda-feira, dia de cirurgia. Era a primeira segunda-feira de julho e o dia estava ensolarado. E lá me fui para o Hospital Santa Helena. É interessante perceber o desconforto consciente de que você é o "objeto" a ser internado. Visitas a hospitais não são fato freqüente na minha vida; ser internada então, muito menos.

Chego as 09:30 da manha para cirurgia marcada as 13:30hs. Informo na recepção que vim para uma cirurgia, entrego identidade e carteira do convenio e me pedem para aguardar nas poltronas. Após espera de umas duas horas sou chamada. Vou a um balcão de atendimento assinar vários papeis autorização de internação, autorização de procedimentos, contrato de prestação de serviços do hospital, autorização recebimento de sangue, recebimento de manual de internação, recebimento de código para efetuar ligações do quarto, telefone da enfermaria e por ai vai.

Volto para o salão de espera e logo sou chamada para subir. Vou ao sétimo andar, enfermaria, num quarto grande com dois leitos. O enfermeiro traz um questionário, faz algumas perguntas sobre uso de medicamentos, problemas de saúde, alergias etc e pede para tirar o esmalte das unhas. Traz o avental e acetona e pede que tire o esmalte, pois, em caso de falta de oxigênio na cirurgia os dedos ficam roxinhos e a identificação do problema e imediata. Vem a anestesista, mais fria, menos jeitosa, pergunta as mesmas coisas e vai embora. Vem o enfermeiro do centro cirúrgico, super-bem humorado e espirituoso e solicita minha prontidão para a maca que me levaria ate o outro andar. Sou levada via maca ate o centro cirúrgico e digo que quero sair linda e loira e manequim 42.

Sou colocada ao lado da maca de um rapaz na espera para cirurgia para tratar desvio de septo. Conversamos um pouco e logo ele segue para cirurgia. Em frente fica o balcão do setor e a espera pós-anestesia. Fico observando o movimento e as pessoas que vão e vem. O enfermeiro bem humorado preenche uma ficha com meu nome e procedimento a ser feito e a pendura na minha maca. Depois deixa um pequeno papel com informação similar sobre minhas pernas. Opa! Estou em boas mãos! Acho que sabem o que estão fazendo!

Fecho os olhos, cruzo os braços atrás da cabeça e tento relaxar. E logo vem uma moça perguntar se esta tudo bem, medicações, doenças, pressão etc. Dai vamos para o corredor das salas de cirurgia em si. Passo levantando a cabeça, olhando tudo que posso. Passo por três salas, todas com portas semi-abertas, vejo um procedimento na primeira, na outra sala um homem de uniforme azul espera sentado na sala vazia, na outra sala vejo uma mulher e na próxima sala entro. O anestesista se pronuncia, faço piada, meu medico aparece, pergunta se trouxe exames, ainda bem que sim, e lá vem uma agulha no punho para sedação. Sossega leão a caminho...

Plin! Acordo na sala de recuperação pós-anestesia, não vi nem senti nada. Ótimo! Uma enfermeira me anima, fala comigo, pergunta se estou bem. As pernocas não mexem; só em pensamento. Meu vizinho distante é o rapaz do desvio de septo, esta se recuperando. Vira e mexe olho o relógio e acho que após uma ou duas horas por lá subo para o quarto. As coxas parecem mexer um pouco. Chego ao quarto e minha mãe me recebe, que bom! Muito bom! Falamos e ela me mostra uma acompanhante escondida atrás da cama. A mãe dela esta em cirurgia de mastectomia.

Mi madre se vá e minha companheira de quarto chega. E uma senhora portuguesa “com certeza"! Conversa com a filha, logo mais chega o marido e outra filha e só se ouve vozes femininas. Mas elas falam... E tudo gira em torno da matrona portuguesa dona de casa que se gabava do fato de já ter feito varias cirurgias. Fiquei de boa, relaxando, ainda meio zonza, recebendo soro, louca para mastigar algo, mas informaram que só comeria no jantar. Não tinha fome pois o soro me sustentava, mas queria botar algo na boca. O jantar chega, tarde da noite e me esbaldo.

Como bonitinho, canja, purê de abobora, arroz com ervilha, acelga e peixe "frito". Pois é, frito! Não me pergunte por que, mas não esperava nada do tipo "frito" ser servido em um hospital. Anyway, mandei brasa e no manjar de coco também! Nham nham nham! Mais tarde tiraram minha sonda, e de madruga fui varias vezes ao banheiro, pois o sistema urinário estava funcionando direitinho. Que Bueno! Chato era o fato de ter que carregar o soro para ir ao banheiro. Vez ou outra tirei o soro do suporte, mas ai a coisa não funciona direito pois o sangue entra no acesso do soro. E quando levantava para ir ao banho minha colega de quarto, que, diga-se de passagem, custava a dormir, falava que eu podia acender a luz e etc, que ela estava acordada e não atrapalhava. E eu querendo mandar a M! E como estou acostumada a andar a meia luz em casa ate o banheiro, o fiz assim mesmo e a deixei falando sozinha, pois não estava lá muito a fim de discutir o momento. Alem disso a enfermeira entra no quarto umas três vezes durante a noite para dar medicação então, dormir uma noite completa não era algo muito possível, alem do fato da cama não ser muito confortável, do acesso do soro estar me irritando, enfim, moleza....

Na manha de terça surge uma enfermeira, sem dizer bom dia, ja perguntando: "Alguém aqui esta de alta?". Um bom dia cairia muito bem.... meu bem.... Vou ao banho escovar as presas e aparece outra enfermeira bem humorada, simpática e espirituosa. Falamos que aguardamos alta dos nossos médicos hoje e ela informa que eles podem passar ao longo do dia, sem horário fixo. Preparo-me mentalmente para ficar ate o final da tarde, se necessário. Chega o café, me esbaldo com pão e manteiga e minha room-mate reclamando que o quarto e quente, que bate sol, que o café e ruim, que o café de casa é melhor. PQP!!!!!!!!! Vai reclamar assim na Ilha da Madeira! E eu tentando mostrar o lado bom de tudo isso, que era junho e não estávamos passando frio, que tínhamos uma bela vista e etc etc etc.....Dureza.....

Logo mais meu doctor chega, pergunta se estou bem e informa que me dará alta. Me dá recomendações básicas e pede retorno ao consultório em um mês. Yupiiii! Aviso em casa que estava de alta, vou tomar um banho e decido voltar sozinha para casa. Não queria ficar esperando ninguém, ficar pendurada e presa a um carro; queria sair, ver a rua, ver gente. E curioso que ao fazê-lo você percebe que estava em outra vibe. Na vibe de cuidados com você. Na vibe em que você é o centro das atenções, em que uma enfermeira esta de olho em você e você se concentra nisso. Não pensava e muito mais do que isso, e foi bom. As preocupações bestiais do dia a dia não estavam presentes, estavam de lado. Havia algo mais importante a ser cuidado.

E ao assinar os papeis de saída e deixar o hospital vejo "o mundo lá fora". Caminho devagar ate o metrô e já me vejo como mais uma, ou nenhuma. Desço na estação Faria Lima, vou até o Shopping Eldorado comprar remédios que o medico receitou. Pego o trem e chego em casa. Tomo um lanche com a mamma e vou ver emails. Foi tranqüilo, sem drama. Acho que estou melhorando na forma de lidar com a ansiedade dessa experiência.

Outra coisa, junto com isso tem aquele lance de divulgação de informação em rede nacional-social. Não e bem a minha. Já vi gente contando que mãe esta internada de novo e as pessoas dão força pela internet! PQP! Eu não tenho coragem de fazer isso! De dizer o que estou passando on-line, muito menos de receber apoio e agradecer em rede nacional-mundial. Pra mim não da! Assim, gente que nunca fala com você se "comove" e da uma força??!!!! Não e bem assim que funciona não.... Sou mais o mundo real apesar de estarmos tão virtuais, e nada virtuosos......

Um comentário:

Anônimo disse...

Eu quero comentar que me sinto bem viva ao ler este seu depoimento de que precisamos das outras pessoas para sobreviver. Não precisamos do mundo virtual nesta hora.
JéssicA - irmã